Está aberta a venda online de bilhetes para Temporada 2025
O bravo Jazminero, Moura e Tristão em guerra, Luque o poder e forcados de raça
A celebrar 125 anos, domingo 4 de Outubro a centenária praça de Vila Franca voltou a encher-se de aficionados para uma corrida que trazia consigo aquilo que tantas vezes falta: interesse, diversidade, competição e, sobretudo, seriedade. Nem a ameaça de chuva afastou o público. Porque quando o cartel chama, quando o toiro promete e quando existe alguma coisa em jogo, a Palha Blanco, responde.
E respondeu.
Não foi uma “tarde de orelhas”… de números ou de triunfos fabricados. Foi uma tarde de conteúdo. Daquelas em que o toiro voltou a ocupar o lugar que lhe pertence: o centro de tudo.
Vieram três de Murteira Grave, contando com o sobrero que saltou à arena para substituir o Sommer d’Andrade devolvido. Três toiros distintos, mas três exemplares com muita coisas para dizer… e de muito boa nota.
O primeiro, sério e bem posto de cara, teve mobilidade, cadência e foi crescendo com o castigo. Bom toiro! O sobrero teve qualidade, foi nobre e permitiu tourear a gosto. Mas foi o castanho, quinto da ordem, que trouxe consigo o cheiro da Galeana.
Dava pelo nome de Jazminero.
Imponente! Bravo, encastado, pronto nas acometidas e arrancando de largo para o cavalo. Nos capotes tinha uma investida de luxo. Foi um toiro daqueles de cara ou cruz, que dão a oportunidade, “triunfo gordo”. E isso, no toiro bravo, é quase tudo. Joana Grave, filha de Joaquim Grave, deu merecidamente a volta à arena no final da sua lide.
Dos Sommer d’Andrade apenas se lidou um. Trazia 720 quilos no lombo, peso que impressionava mais no papel do que aquilo que depois se viu na arena. Teve mobilidade, mas esperou por momentos na reunião e nunca chegou verdadeiramente a romper. O outro, de 730 quilos, saiu coxo e regressou aos currais depois de uma demora interminável que partiu de alguma forma o ritmo da corrida.
Os Falé Filipe destinados a Daniel Luque foram diferentes. O primeiro nobre, mas sem grande transmissão. O último, negro bragado e corrido, cinqueño, sério e com trapio, tinha contas para pedir. E encontrou pela frente quem soubesse “pagá-las”.
Antes disso, porém, houve “guerra a cavalo”.
Porque Miguel Moura e Tristão Ribeiro Telles não chegaram a Vila Franca para trocar cumprimentos.
Chegaram para competir.
Miguel Moura atravessa talvez o momento mais sólido da sua carreira. Há nele hoje uma segurança diferente, uma maturidade que lhe permite fazer as coisas sem precipitação e um entendimento cada vez maior do toureio que quer praticar.
No primeiro de Murteira Grave recebeu em porta gaiola e deixou depois outro comprido à tira. Mas foi na brega que começou a construir a lide. Trouxe o toiro cosido à montada, ladeou com gosto e rematou com expressão. Os dois primeiros curtos tiveram nota alta e ficaram aqueles pormenores que o aficionado guarda na memória.
O remate da terceira bandarilha foi genial. E apareceu Miguel. Sem gestos para a bancada nem apelos ao aplauso. O seu caminho é outro: sentir o toiro, medir os terrenos e cravar com verdade. Tudo com naturalidade, sem ruído, deixando o toureio falar. Fechou com um palmito de boa nota. E a praça respondeu como respondem as praças quando não lhes pedem nada: entregando-se.
No sobrero voltou a crescer durante a lide. Depois de estar correcto nos compridos, foi encontrando o toiro e encontrando-se com ele. Houve ladeios marca da casa… O quarto curto, ajustado, reunido e bem rematado, teve impacto. Depois veio um palmo num palmo de terrenos, como quem coloca a assinatura no fim da página.
Do outro lado estava Tristão.
E Tristão tem uma coisa que não se ensina: quando acredita, põe a praça em sentido.
Com o Sommer dos 720 quilos não encontrou matéria para grandes voos. A porta gaiola não saiu como desejava, corrigiu depois com um comprido bem colocado e, nos curtos, deixou alguns apontamentos de interesse. Cumpriu.
Mas faltava o quinto. E o quinto tinha vindo da Galeana para pedir guerra.
Tristão deu-lhe distância. Muita! O castanho arrancou. E o cavaleiro esperou. Ali, por instantes, a Palha Blanco ficou presa àquela linha invisível que separa o risco do triunfo.
Tristão aguentou a investida, foi recto ao encontro e cravou com verdade. Voltaria a fazê-lo, dando prioridade ao toiro, pisando terrenos onde já não há muito espaço para corrigir. Foi uma lide de exposição, de raça, de coração. Toureio na linha de fogo.
Quando Tristão conseguir juntar a esta entrega um pouco mais de temple nas viagens, deixando que tudo aconteça um segundo mais devagar, pode atingir outra dimensão. Porque o valor está lá. A raça também. E a ambição, essa, vê-se de longe.
Miguel respondeu a Tristão. Tristão respondeu a Miguel. E Vila Franca agradeceu!
Nas pegas também houve verdade.
Joel Santos, pelos Amadores de Montemor, sofreu um violento derrote na primeira tentativa, regressando para consumar com brilho à segunda tentativa. José Maria Cortes Pena Monteiro concretizou depois uma grande pega à barbela ao primeiro intento, plena de técnica e poder.
Por Vila Franca, Rodrigo Camilo fechou-se à primeira numa pega de grande serenidade e categoria. Miguel Faria precisou de três tentativas, depois de dois derrotes laterais o terem afastado da cara, mas regressou sempre. E regressar também é ser forcado.
Depois veio Daniel Luque. Ou melhor: veio um toureiro!
Porque há tardes em que a técnica serve para resolver problemas. E há outras em que a técnica se transforma em arte precisamente porque havia problemas para resolver.
No primeiro Falé Filipe, Luque deixou já sinais da tarde que iria realizar na Palha Blanco. Muito bem de capote, iniciou a faena com classe e encontrou ao natural os momentos de maior profundidade. Correu a mão, deu distância, templou e deixou ainda um circular invertido de grande expressão.
Mas o sexto era outra história.
Bonito, negro bragado, sério, com cinco anos e presença de toiro, não oferecia nada.
Era preciso tirar-lhe tudo. E Luque tirou!
Começou a mandar onde o toiro queria mandar. Foi corrigindo-lhe as investidas, encurtando-lhe as dúvidas, alargando-lhe as viagens. Passou a decidir terrenos, alturas e distâncias. Pouco a pouco, aquilo que parecia impossível começou a parecer fácil.
E essa talvez seja a maior mentira dos grandes toureiros: fazer-nos acreditar que é fácil aquilo que só eles conseguem fazer.
Luque sacou faena de onde muitos teriam sacado desculpas. Não houve truques. Houve poder. Houve conhecimento. Houve toureio!
A Palha Blanco percebeu e entregou-se. Não estava diante de um matador que viera cumprir um contrato em Portugal. Estava diante de uma figura que encarou Vila Franca como se encara qualquer praça importante do mundo. Porque Vila Franca é isso mesmo!
A tarde prolongou-se por quase três horas. Houve a interminável recolha do Sommer de 730 quilos, houve pausas, houve momentos melhores e outros menos conseguidos.
Mas houve toiros. E houve homens diante deles.
Nas cortesias guardou-se um minuto de silêncio em memória de Luís Campino. A corrida foi dirigida por Lara Gregório de Oliveira, assessorada pelo médico veterinário José Luís da Cruz.
No fim, quando as portas da Palha Blanco começaram a devolver Vila Franca à rua, ficou uma sensação de termos estado numa corrida de toiros.
Sem necessidade de triunfalismos. Sem fabricar heróis. Sem transformar o acessório no essencial.
Murteira Grave levou a bravura da Galeana até Vila Franca. Miguel Moura confirmou que atravessa um momento grande. Tristão Ribeiro Telles voltou a procurar o impossível na linha de fogo. Daniel Luque mostrou que mandar também pode ser uma forma de criar beleza. Montemor e Vila Franca deram a cara, literalmente, pela sua história.
E a Palha Blanco, aos 125 anos, continuou ali… Velha, exigente, solene!
A lembrar-nos que naquela arena os quilos podem pesar muito, os nomes podem pesar ainda mais, mas há uma coisa que pesa acima de todas: a verdade do toiro bravo e de quem se põe diante dele!
Miguel Ortega
Está aberta a venda online de bilhetes para Temporada 2025


