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Salgueiro Emocionou e Moura Jr. Incendiou a Palha Blanco

Há terras que, todos os anos, renovam um juramento. Vila Franca de Xira é uma delas.

O Colete Encarnado nunca foi apenas um acontecimento inscrito no calendário… É uma forma de afirmar quem se é. É o campino que continua a trazer a lezíria à cidade, como se o tempo nunca tivesse conseguido dobrar-lhe a figura. É o cheiro da terra quente, das ruas cheias, das entradas de toiros, onde o medo e a coragem continuam a caminhar de mãos dadas. É um povo que faz do toiro um símbolo de pertença e não apenas um motivo de festa.

É por isso que, quando as portas da Palha Blanco se abrem, não começa apenas uma corrida. Começa uma conversa entre gerações. E o passado domingo, 5 de julho, foi mais um desses dias.

O calor que caiu sobre Vila Franca era daqueles que secam a terra, obrigam o silêncio a procurar abrigo e fazem do vagar um sentimento. Alguns ficaram em casa, vencidos por um sol impiedoso que retirou algum colorido aos tendidos, preenchidos em cerca de dois terços da sua capacidade.

A empresa montou um cartel à imagem da identidade da Palha Blanco. O regresso de João Salgueiro transportava consigo a memória dos grandes cavaleiros que nunca precisaram de levantar a voz para impor respeito. João Moura Jr. chegava num dos momentos mais sólidos da sua carreira. Borja Jiménez trazia consigo os triunfos da temporada espanhola. Pela frente, seis toiros da Condessa de Sobral. E os Forcados Amadores de Vila Franca voltavam a vestir a jaqueta das ramagens com o peso de uma história que nunca permite facilitismos no Colete Encarnado.

Foi Alves Redol quem escreveu que “se um escritor pode fazer um rascunho, corrigir ou republicar, a um toureiro não é dada uma segunda oportunidade na arena. Trata-se da única arte do efémero.” Talvez seja essa a essência da tauromaquia. Tudo acontece num instante irrepetível. Não há revisões nem segundas versões. Apenas a verdade do momento.

E tudo acontece numa arena. E a arena nunca mente.

João Salgueiro encontrou no quarto da tarde um daqueles momentos que justificam uma carreira inteira. Não foi apenas uma grande lide. Foi uma conversa íntima entre cavaleiro e toiro, onde cada embroque parecia nascer antes de acontecer. Houve temple, houve distância, inteligência e, sobretudo, esse raro dom de fazer parecer simples aquilo que apenas os grandes conseguem executar. A Palha Blanco percebeu-o. E quando uma praça como esta reconhece um momento de génio, fá-lo sem reservas. O triunfo surgiu naturalmente. Não apenas voltou João Salgueiro; regressou também o toureio que o tornou uma referência.

Mas, se Salgueiro emocionou, João Moura Jr. incendiou a tarde.

Os dois toiros permitiram-lhe revelar toda a dimensão do momento que atravessa, mas foi perante o quinto que o tempo pareceu suspender-se. O bravo exemplar de Condessa de Sobral tinha tudo o que um artista deseja encontrar: investida, emoção, classe e duração. Foi bravo.

Moura Jr. respondeu com um toureio cheio de verdade. Cravou ferros emocionantes, deu vantagens, deixou o toiro arrancar de longe e esperou-o com uma serenidade desarmante. Cada reunião desenhava-se com a naturalidade que apenas surge quando talento e confiança caminham lado a lado. Os remates tiveram inspiração e pureza. As bancadas ergueram-se quase por instinto, rendidas a uma obra construída sem artifícios, apenas com toureio a cavalo de inconfundível timbre mourista.

Borja Jiménez deixou duas atuações sérias, firmes e comprometidas. Nunca procurou atalhos nem efeitos fáceis. Procurou o toiro, respeitou-o e construiu duas lides agradáveis, acrescentando consistência a uma corrida que nunca perdeu interesse.

Mas seria impossível falar desta tarde sem olhar para o verdadeiro protagonista: o toiro.

Os exemplares da Herdade dos Montezes estavam bem apresentados e na generalidade, um comportamento muito positivo. O primeiro revelou maiores dificuldades. O quarto e, sobretudo, o quinto honraram plenamente a divisa. Bravos, prontos e exigentes, ofereceram aos toureiros a matéria-prima indispensável para que a emoção acontecesse.

A volta à arena do ganadero Manolo Gavira e do velho maioral Manel foi uma das imagens mais bonitas da tarde. Naqueles passos lentos do Manel dos Montezes estava representada uma vida inteira dedicada ao campo bravo. Num tempo em que tudo parece imediato, continuam a existir homens que esperam anos para colher, em poucos minutos, o reconhecimento de uma vida inteira.

Os Forcados Amadores de Vila Franca voltaram a demonstrar por que pertencem à elite dos forcados portugueses. Guilherme Dotti rubricou uma pega de enorme emoção. Miguel Faria confirmou, uma vez mais, aquilo que distingue os grandes. Pisa a arena e tudo parece acontecer com uma serenidade rara. Cita com verdade, recebe com pureza e fecha-se na cara do toiro como se, naquele instante, o mundo deixasse de existir. Há técnica, evidentemente. Mas há qualquer coisa que a técnica nunca conseguirá explicar. Chama-se toreria.

Rodrigo Andrade resolveu a sua pega com valentia e correção. Rodrigo Camilo encerrou a corrida de forma soberba, fechando uma tarde em que o grupo mostrou aquilo que verdadeiramente distingue uma grande formação de forcados: ninguém procura protagonismo quando todos procuram apenas cumprir a sua missão. Ou seja pegar toiros!

Foi igualmente notável o trabalho dos primeiros ajudas, Diogo Duarte e Diogo Sousa. Discretos para quem vê apenas o resultado, fundamentais para quem conhece a exigência do toiro.

Quando a noite começou finalmente a cair sobre Vila Franca, percebeu-se que a corrida já pertencia à memória.

E talvez seja essa a maior virtude desta terra.

Há cidades onde as tradições sobrevivem por obrigação. Em Vila Franca de Xira sobrevivem por amor.

Enquanto houver um campino a atravessar as ruas com o orgulho sereno de quem sabe de onde vem; enquanto o toiro continuar a ser o verdadeiro dono da festa antes mesmo de entrar na praça; enquanto a Palha Blanco conservar a exigência de premiar apenas a verdade; enquanto houver jovens dispostos a vestir a jaqueta das ramagens sem pedir nada em troca, Vila Franca continuará a ser muito mais do que uma referência da tauromaquia portuguesa.

Continuará a ser um lugar onde um povo inteiro encontra, todos os anos, razões para se reconhecer naquilo que nunca deixou de ser.

Porque, como lembrava Alves Redol, a arena não conhece rascunhos nem revisões. Vive apenas do instante. E talvez seja por isso que cada Colete Encarnado permanece para sempre na memória de quem o viveu: porque há emoções que, precisamente por serem efémeras, acabam por se tornar eternas.

Por:

Miguel Ortega Cláudio

Grande aficionado e abonado na Palha Blanco

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