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Vila Franca: Há Jaquetas que não se despedem e legados que não se esquecem

Há praças de toiros que têm história. Outras que têm personalidade. E depois há a Palha Blanco, que tem as duas coisas e ainda esse feitio muito próprio de quem sabe o que quer, o que exige e aquilo que não está disposto a aceitar.

Na noite de terça-feira, Vila Franca voltou a ser Vila Franca. Com as bancadas muito bem compostas, a exigência de sempre e aquela atmosfera tão particular que só se vive numa terra onde o toiro e o forcado fazem parte da própria identidade das suas gentes.

A centenária praça, que este ano celebra 125 anos de existência, recebeu a última corrida da Feira Taurina de Outubro, numa temporada em que a empresa liderada por Bernardo Alexandre soube devolver importância aos cartéis, seriedade à apresentação dos toiros e, sobretudo, valor aos triunfos. Em Vila Franca repetiu-se quem mereceu voltar. E isso, nos tempos que correm, não é coisa pouca.

Mas esta não era apenas mais uma corrida. Era uma noite de despedidas, de emoções e de continuidade. Uma noite em que uma jaqueta carregada de história mudava de mãos, sem que mudasse aquilo que verdadeiramente representa.

Ser forcado de Vila Franca não é apenas vestir uma jaqueta. É carregar aos ombros o peso de uma história construída por gerações de homens que fizeram da coragem, da entrega e da amizade uma forma de estar na vida.

E ser cabo deste grupo é muito mais do que mandar. É saber ouvir, decidir, assumir responsabilidades e, sobretudo, dar o exemplo.

Vasco Pereira despediu-se da chefia do Grupo de Forcados Amadores de Vila Franca de Xira como certamente desejaria: diante de um toiro sério, na sua praça, perante a sua gente e com os seus companheiros atrás de si.

Foi ao terceiro toiro da noite que escreveu a última página da sua história enquanto cabo. Citou, recebeu e consumou uma pega de grande segurança à primeira tentativa. Sem artifícios, sem gestos desnecessários, com a serenidade de quem conhece os terrenos que pisa e sabe bem o que representa aquela jaqueta.

Depois veio a volta à arena. Primeiro acompanhado, depois sozinho. E a Palha Blanco levantou-se para aplaudir um homem que, durante os anos em que esteve à frente do grupo, soube honrar uma herança que não lhe pertencia apenas a ele, mas a todos quantos antes dele fizeram grande aquela instituição.

Vasco Pereira deixa um legado que não se mede apenas pelo número de corridas, pelas pegas realizadas ou pelos triunfos alcançados. Mede-se, acima de tudo, pelo respeito conquistado, pela dignidade com que representou o grupo e pela responsabilidade de ter sabido preparar quem lhe sucede.

Porque um bom cabo não é apenas aquele que deixa saudades. É também aquele que deixa futuro.

E esse futuro tem nome: Rodrigo Dotti.

Não chega à chefia por acaso, nem apenas pelo peso de um apelido ligado à história dos forcados de Vila Franca. Chega por mérito próprio, pelo percurso que construiu dentro do grupo e pela qualidade que tantas vezes demonstrou como primeiro-ajuda.

Na terça-feira voltou a mostrar por que razão é um dos grandes ajudas da actualidade. Esteve enorme, decisivo, atento, com aquela capacidade tão difícil de estar no sítio certo, no momento exacto, quando um companheiro mais precisa.

Há homens que se distinguem pela forma como pegam de caras. Outros tornam-se indispensáveis pela maneira como ajudam. Rodrigo Dotti pertence a essa estirpe de forcados que fazem da ajuda uma arte, tantas vezes silenciosa, mas absolutamente determinante.

Agora espera-o outro desafio. O de passar da responsabilidade de ajudar à responsabilidade de conduzir. De continuar a respeitar o passado sem ficar prisioneiro dele, de preservar a identidade do grupo e de encontrar o seu próprio caminho.

Vila Franca não lhe pede que seja igual a Vasco Pereira. Pede-lhe que seja digno da jaqueta que agora passa a comandar.

E, pelo que já mostrou, tem tudo para o conseguir.

A corrida teve seis pegas que disseram muito da qualidade e da capacidade de superação do Grupo de Vila Franca.

Rodrigo Andrade abriu praça com uma pega de grande nota à primeira tentativa, muito bem ajudado por Rodrigo Dotti. Lucas Gonçalves resolveu a segunda à segunda tentativa, enquanto Vasco Pereira, como já referi, despediu-se com uma pega segura e afirmativa ao primeiro intento.

Na segunda parte, Vasco Carvalho concretizou à segunda tentativa, Guilherme Dotti teve de se superar até à quarta, numa demonstração de querer e persistência, e Rodrigo Camilo encerrou a noite com uma grande pega à primeira tentativa, novamente com uma ajuda de enorme categoria de Rodrigo Dotti.

Não foram seis pegas iguais, nem podiam ser. Houve momentos de maior dificuldade, terrenos comprometidos e situações que exigiram entrega e capacidade de resposta.

Mas houve, sobretudo, grupo.

E quando há grupo, quando os homens se entregam uns pelos outros e quando a jaqueta está acima de qualquer individualidade, percebe-se por que razão os Amadores de Vila Franca continuam a ocupar um lugar tão importante na história da forcadagem portuguesa.

No toureio a cavalo, António Prates foi, no conjunto das duas lides, o nome maior da noite.

O cavaleiro de Vendas Novas atravessa um momento de afirmação e voltou a demonstrar que o seu toureio tem argumentos para conquistar as praças mais exigentes.

No primeiro toiro, montado no Fantástico, mostrou disposição, sentido de lide e uma forma de interpretar as investidas que merece ser valorizada. Houve bons ferros, reuniões ajustadas, brega ligada e remates com emoção. Mas houve, acima de tudo, vontade de tourear.

No último da corrida, recebido à porta gaiola, manteve a atitude e a entrega, procurando sempre dar resposta às exigências do oponente. Foi uma lide de raça, com momentos de risco e verdade, em que Prates não se refugiou em facilidades.

Talvez ainda lhe falte consolidar definitivamente um conceito próprio, mas há uma coisa que já ninguém lhe pode negar: tem personalidade, ambição e vontade de ser figura.

E Vila Franca, que não costuma oferecer triunfos de mão beijada, parece ter encontrado nele um novo nome para guardar.

João Moura Jr. teve duas passagens muito distintas pela arena vilafranquense.

No primeiro do seu lote, um toiro parado, distraído e pouco colaborante, limitou-se a cumprir com ofício, sem conseguir encontrar matéria para construir uma lide de maior expressão.

Mas no quinto apareceu outro Moura.

Diante do melhor toiro da corrida, com maior mobilidade e transmissão, o cavaleiro de Monforte desenhou uma actuação de grande nível. Houve brega de qualidade, cites de largo, batidas oportunas e ferros de excelente nota, com emoção nas reuniões e verdade na execução.

Quando Moura Jr. se encontra com um toiro que lhe permite desenvolver o seu conceito, percebe-se a dimensão do toureiro que é. Não precisa de gestos para a bancada, nem de procurar aplausos antes de tempo. Tem na maneira de montar, de sentir os terrenos e de interpretar as distâncias a sua melhor linguagem.

Terminou com um palmito e uma praça rendida, numa lide que constituiu um dos momentos altos da noite.

Foi também neste toiro que se viveu outro instante de particular emoção, com a despedida de Benito Moura, bandarilheiro de uma família profundamente ligada ao toureio. Coube ao primo João Moura Jr. cortar-lhe a coleta, sob o olhar emocionado do Maestro João Moura.

Há despedidas que dispensam grandes cerimónias. Basta-lhes a verdade do momento.

João Salgueiro regressou à Palha Blanco, precisamente à praça onde, em Julho, tinha iniciado um dos capítulos mais marcantes da sua temporada de reaparecimento.

Desta vez, porém, não encontrou a noite que certamente desejaria.

No primeiro toiro teve pela frente um adversário reservado, que media e esperava, exigindo experiência e determinação. Salgueiro puxou dos galões, procurou resolver as dificuldades e deixou alguns ferros de mérito. Não foi uma lide de grande brilho, mas foi uma actuação de superação, em que se reconheceu o ofício e a capacidade de um toureiro que tantas páginas importantes escreveu na história do toureio a cavalo.

No segundo, a actuação ficou aquém do esperado. Faltou ligação, faltou continuidade e, sobretudo, faltou aquele Salgueiro capaz de transformar uma lide difícil num momento de inspiração.

A excessiva intervenção dos bandarilheiros também não ajudou, merecendo reparos do público.

Mas uma noite menos conseguida não apaga aquilo que João Salgueiro representou nesta temporada. O seu regresso devolveu às arenas um toureiro de personalidade, de raça e de uma dimensão artística que continua a fazer falta à Festa.

Lidou-se um curro de Veiga Teixeira muito sério, bem apresentado, com idade e trapio, como a Palha Blanco exige.

Foram toiros de comportamento desigual, alguns reservados e complicados, que nem sempre facilitaram a tarefa dos cavaleiros e que colocaram igualmente à prova os forcados.

Destacou-se o quinto, pela maior mobilidade, bravura e transmissão, merecendo a volta à arena do maioral.

Foi uma corrida de toiros que impôs respeito. E em Vila Franca isso continua a ser condição essencial.

António Prates saiu reforçado, João Moura Jr. deixou uma lide de grande categoria e João Salgueiro encerrou uma temporada de regresso que merece ser recordada.

Mas, acima de tudo, ficou a imagem de Vasco Pereira a despedir-se da sua praça, depois de cumprir a última pega como cabo, e de Rodrigo Dotti a receber uma responsabilidade que é, simultaneamente, uma honra e um compromisso.

Na forcadagem, como na vida, há momentos em que o mais importante não é aquilo que termina, mas aquilo que se consegue deixar aos que vêm depois.

Vasco Pereira deixa uma história, um exemplo e uma jaqueta honrada. Rodrigo Dotti recebe um grupo com passado, com identidade e com futuro.

Porque ser cabo é, durante alguns anos, ter a responsabilidade de guardar uma história que começou muito antes de nós e que deve continuar muito depois de partirmos.

E talvez seja essa a maior grandeza da forcadagem.

Os homens passam. A jaqueta fica. E Vila Franca continua.


Miguel Ortega

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